quinta-feira, 5 de maio de 2011

O dia que minha alma emudeceu! - Parte 1

Estou protelando esta postagem há exatos 3 anos. Desde que criei este blog prometi a mim mesma que iria postar o pior momento e também o melhor de minha vida e que faria isso para não esquecer (como se fosse possível) todo o sofrimento que vivi no ano de 2006 e que só quem tem filho poderá compreender essa dor lancinante que corta nossa alma ao meio. Sempre que vivo momentos difíceis, volto minhas lembranças para aquele fatídico 14/06/2006 onde tudo que pensei saber da vida, me mostrou o quão pequena eu sou diante dos mistérios que esta jornada que fazemos por este planeta pode nos aguardar!

Dessa forma, estou reunindo os pedaços das minhas lembranças e colocando-as neste post para que um dia meus netos, bisnetos ou qualquer outra pessoa possa ler e entender o significado destas palavras: "mistérios da fé".

13/06/2006 - Primeiro jogo da seleção brasileira para disputa da copa do mundo. Brasil x Croácia. A prefeitura nos liberou mais cedo e fui direto para casa buscar meus filhos para assistirmos o jogo na casa de minha mãe regado a bolo de queijadinha (uma delícia!) e pipoca. Meu pai havia comprado umas cornetas que os meninos assopraram com todo vigor no primeiro e único gol do Brasil. O Lucas com a camisa azul da seleção e o Tiago com a camisa amarela. Eu estava com uma misto de verde, amarelo e azul. Adoramos a copa do mundo e nessas épocas vestimos mesmo a camisa da seleção e de nosso país!

Terminado o jogo o que foi uma certa decepção, pois esperávamos no mínimo uns 3 x 0 em cima da Croácia, voltamos pra casa pelo menos aliviados por termos ganho a partida.

No dia seguinte, era aniversário de minha mãe e iríamos todos a noite em sua casa comemorar seus 66 aninhos de vida. Logo pela manhã, o Lucas pediu para não ir a escola, pois estava com falta de ar. Dei uma inalação nele e fui trabalhar. O Lucas começou a ter asma logo depois que voltamos de Juquitiba e eu achei que pudesse ter sido o baque da mudança de um ar tão puro como os das montanhas de lá com o ar pesado e poluído daqui de São Paulo, mas enfim, ele não tinha sempre falta de ar, era uma vez ou outra e aquilo sinceramente não me preocupou muito.

Fiquei monitorando ele de meu trabalho para ver se ainda estava ruim. Ele tomava Simbicort para prevenir as crises e Combivent quando estivesse em crise. Mesmo com o uso dos medicamentos não houve melhora na falta de ar e pedi para sair mais cedo e voltar para casa cuidar de meu filho, afinal tínhamos a festinha de mamãe e queria que ele estivesse bom para podermos ir pra lá sem preocupações.

Porém, no decorrer decorrer da tarde ele não melhorou e por volta de umas 18 horas, começou a queixar de dor no peito. Eu que já estava preocupada com seu estado, comecei a entrar em pânico, pois uma dor no peito não me parecia ser um prognóstico bom. Avisei minha mãe que teria de levá-lo ao hospital e meu pai se ofereceu para me acompanhar. Parei na casa deles para pegar meu pai e fui dirigindo em direção ao hospital com meu coração aos saltos.

Logo na Av. água Fria, encostei o espelho retrovisor de meu carro em outro carro e meu pai acabou assumindo a direção, pois percebeu meu nervosismo. No caminho meu filho encostava o rosto no enconsto do banco do passageiro e me dizia: - Fica calma mãe! Eu tô bem, viu? Aquele olhar preocupado de meu filho com minha preocupação fazia com que meu coração encolhesse ainda mais!

Chegando ao hospital ele foi atendido como "caso de risco" (coisa que fiquei sabendo depois), e logo entrou para passar pelo médico.

Foi, então, encaminhado para inalação. Depois, outra inalação, depois um remédio na veia, e mais tarde, mais uma inalação.

Depois de todo esse tratamento o médico pediu ao meu filho que ele falasse seu nome completo: LUCAS BRANCHI EVANS SALVIA, mas ele não conseguiu. Meu filho não tinha fôlego para dizer seu próprio nome de uma única vez.

O médico então me chamou no canto e disse que iria colocá-lo na UTI, pois seu caso era realmente grave. Troquei um olhar meio que perdido com meu pai que se afastou de mim. Percebi que ele tinha ido chorar longe de mim e do Lucas. Naquele momento eu não sentia mais o chão. Não sentia mais meus batimentos cardíacos e não sentia nem vontade de chorar. Somente um vazio intenso, frio e gélido percorria minha corrente sanguínea. Olhei para meu filho que bravamente lutava por um pouco de ar e pensei na inocência dele que nem ao menos sabia o que era uma UTI. Aproximei-me dele e disse-lhe que ele teria que ir para um lugar onde seria monitorado 24 horas e que lá ele estaria seguro, mas que eu não poderia ficar com ele, mas que estaria por perto caso ele precisasse de mim. Entre um fôlego e outro meu filho repetiu: - Não se preocupa mãe! Eu estou bem e vou ficar bem. Novamente senti meu coração miudinho... agora era minha respiração que faltava.

A enfermeira se aproximou de mim pedindo que eu providenciasse a internação de meu filho. Antes de ir, fui ver meu pai que estava fora do prédio tentando respirar tanto quanto eu. Não houve palavras, só o abraço forte e a esperança de que tudo passasse rapidamente. Eu segurava bravamente as lágrimas, pois não queria mostrar fraqueza ao meu pai. Nesse minuto tocou o celular dele. Era minha mãe. Ele passou o telefone para mim. Coloquei o aparelho no ouvido e só pude murmurar - "Mãe!"... Ouvi o choro contínuo de minha mãe e permiti que as lágrimas represadas até aquele momento caíssem sobre meu rosto. Só lembro de pedir a ela que rezasse muito! Pensei em sua festa de aniversário, no presente que eu não havia dado e no futuro que não parecia existir mais para mim naquele momento. Com o coração rasgado, o espírito despedaçado e a alma muda desci até o setor de internação para tratar das papeladas e lá tive mais uma surpresa!

A atendente me informou que não havia vagas e que eu deveria tentar em outro hospital, pois a UTI estava lotada! Meu único pensamento naquele instante foi: "Meu filho aguentará uma transferência?". E foi com este pensamento que voltei para a Emergência do hospital. No caminho eu rezei: "Senhor! Você me deu esse menino e eu o estou criando da melhor forma que eu posso, mas hoje, eu não posso fazer mais nada, portanto Deus, eu o coloco em suas mãos! Só Você Deus, saberá p que será melhor agora para meu filho! Toma ele em Teu colo Senhor! Cuida de meu filho pra mim! Obrigada!"

Cheguei na emergência com o rosto quente pelas lágrimas que teimavam em cair. Olhei meu filho ofegante e segurei em sua mão. Apenas sorri. Ele sorriu em resposta. O médico se aproximou e disse-lhe que a UTI estava lotada e que meu filho deveria ir para outro hospital. O médico respirou fundo e disse que veria algum hospital próximo que pudesse recebê-lo. Então tocou meu ombro tentando me confortar um pouco. Olhei para meu pai e vi seus olhinhos azuis vermelhos. Tive tanta pena dele! De sua dor! De nossa dor!

Voltei para perto de meu filho e, tentando parecer o mais natural possível, disse-lhe que ele deveria passear de ambulância, pois ele seria encaminhado a outro hospital e que seria divertido. Ele só sorriu, já não conseguia mais falar!

Segurei em sua mão e pensei em Deus novamente. Repeti mentalmente: "Deus, ele está aqui! Segura ele em Seu colo Senhor!"

Nesse instante uma enfermeira se aproximou dizendo que iria vagar um leito na UTI e que a transferência não seria mais necessária.

Apertei a mão de meu filho e fui avisar meu pai que, apesar da angustia, também ficou um pouco mais tranqüilo. Aguardamos mais alguns minutos até que a ida de meu filho à UTI fosse finalizada. Foi por volta da 01h30 da madrugada que meu filho deu entrada a UTI. Perguntei várias vezes se eu poderia me despedir dele depois que entrasse na UTI apesar de afirmarem que sim, várias vezes!

Ficou eu e meu pai na ante-sala da UTI esperando autorização para nos despedirmos de meu filho. Meu coração era um misto de alegria por ele permanecer no hospital e tristeza e medo de deixá-lo sozinho, pois não queria imaginar nunca mais vê-lo sorrir para mim. E Foi dentro da UTI que me informaram que eu poderia ficar como sua acompanhante, pois ele era menor de idade (15 anos) e aquela UTI era pediátrica! Mais uma vez lembrei de Deus e pensei: "Obrigada Senhor, mas continue com ele em Seu colo, por favor!".

Aquele foi só o início de um suplício que descreverei no próximo post, pois as lágrimas ainda teimam em descer, mesmo depois de 5 anos do acontecido. Peço a paciência e o apoio de vocês! Grande beijo!

11 comentários:

Paula Li disse...

Oi Mirian, só mãe mesmo para entender esse sofrimento. Não tenho filhos, mas vejo como minha mãe se aflige com qualquer doenças dos filhos, principalmente com meu irmão, que já tem 35 anos e é casado, mas é ela quem o leva no médico.
Se uma simples gripe já preocupa uma mãe, imagine uma internação, ainda mas na UTI.
Aja coração...
bjs

Carla Farinazzi disse...

Nossa, Miriam, eu, que estou apenas lendo, não consegui segurar as lágrimas... Imagina você que está escrevendo e que viveu isso. Não sou capaz nem de imaginar sua dor, mas consigo ter uma ideia quando penso na minha filha. Como somos frágeis. E como as coisas acontecem de uma hora para outra, não? São surpresas horríveis, que nos pegam tão despreparadas que ficamos perdidas. Como dói. Estou contigo, querida.

Beijo

Carla

Anônimo disse...

Oi,
Já passei por esse sufoco algumas vezes: comigo mesma, pois sofria muito com bronquite, num tempo que inalação era raro, e com minha filha, não com doenças, mas com um desaparecimento no mar, que qq dia tb conto.
Que bom que tudo deu certo, mas na hora o que acontece com a gente que é mãe, é EXATAMENTE o que vc descreveu: O tempo pára! Não há futuro! Não há o que pensar, só sofrer e pedir à Deus!
bjks da Céci Lisbôa

✿ chica disse...

Puxa, estou sofrendo contigo até aqui...Que situação.Cada uma que somos obrigados a passar...Aguardo os próximos. beijos,chica

eva mooer disse...

Miriam! 2006 foi meu ano também,coisas que só mães podem entender.Estou ansiosa pela parte dois,porque acredito ser a boa parte.No aguardo.Segue um abraço.

Myriam disse...

Miriam minha filha, tô aqui me segurando para não abrir o buáaa, que sofrimento foi esse? Só o Criador mesmo para nos ajudar..Bjs

Simone Audrei disse...

É querida, como diz o poeta, filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo? Só mesmo uma mãe pra entender outra, para dimensionar seu sofrimento, sua agonia, seu desespero e a imensidão do seu amor.
Beijuuuuuuus.

soniaconsult disse...

Que dor em amiga.
Que bom que tiveste fé e confiança em Deus.
Bjs e um bom dia

Alexandre da Fonseca disse...

MARAVILHOSO SEU BLOG! SUCESSO E MUITA PAZ...BJS VISITE: WWW.INSTITUTOEUQUEROPAZ.BLOGSPOT.COM

Blogando com Bebeth disse...

Miriam, que mãe não se colocaria em seu lugar agora?
Tô aflita para saber os finalmentes e te confesso que fui olhar seu perfil (de novo)
Pela postagem vc é mãe de Lucas e Tiago.
Se vc criou o blog para deixar como legado aos "seus filhos" é sinal de que nada de pior aconteceu!
Isso me alivia.Voltarei na próxima postagem.
Bjos

Iram M. disse...

Oi Miriam,
As lágrimas teimam em correr. Meu Deus, como mãe sofre!
Até qualquer mãe que lê um relato desesperado de outra mãe, não há meio de não ser solidário.
Vou para o próximo...

Beijos