segunda-feira, 16 de maio de 2011

O dia que minha alma emudedeu - Parte Final

As coisas caminhavam devagar, mas sempre em frente. O Lucas finalmente havia voltado para nós para a alegria de todos, inclusive de meus amigos da Prefeitura que comemoravam seu retorno. Se eu compartilhei notícias tão ruins com a Mamá, tinha que trocar notícias boas também. Mas sempre que ligava para ela, era uma troca de lágrimas, só que agora positivas. Agradecia sempre pelas orações que todos fizeram para meu filho e pedi que continuassem, afinal ele ainda estava hospitalizado. Sua cama começou a ficar inclinada, pois depois de muito tempo na posição horizontal, se fazia necessário começar a inclinar a cama para irrigação cerebral de sangue.
Percebia que ele tinha muito medo de ficar sem ar de novo. Estava sempre olhando os aparelhos com receio de voltar com a insuficiência respiratória. Percebi que ele não fazia a menor idéia do quanto demorou seu tratamento e que não tinha sido da noite para o dia como ele pensava. Contei-lhe que ele estava em coma há quase 10 dias. Já era dia 22 de junho e pedi que olhasse o calendário que tinha no leito. Ele arregalou os dois olhos! Não acreditou que já havia se passado tanto tempo. Expliquei que ele ficou em coma e que nesse ínterim ele foi tratado da asma, portanto, que ficasse tranqüilo afinal foi um tratamento longo, mas, com certeza, duradouro e que agora ele só melhoraria. Isso o tranqüilizou bastante e a mim também. Quando vemos nossos filhos tranqüilos, essa mesma tranqüilidade começa a fazer parte de nossa alma.
Naquele dia, tinha o Jogo da copa Brasil x Japão. Minha mãe ligou pedindo que o Lucas não visse a Copa, pois ela achava que ele havia ficado doente em virtude do nervoso que passou com o jogo contra a Croácia. Nunca consegui convencer ela de que não tinha nada a ver, mas desde aquela época as cornetas foram proibidas em casa. A preocupação de minha mãe com o próximo jogo do Brasil era clara. Ela pedia para não deixar ele ver o jogo, mas foi impossível! Mesmo assim, pedi ao meu filho que não se entusiasmasse muito, mas ele estava bastante tranqüilo e não se exaltou apesar dos quatro gols do Brasil contra o Japão. Aliás, foi engraçadíssimo ver toda a equipe de enfermagem dentro de um dos leitos que estava vago, assistindo o jogo sem poder gritar a cada gol que o Brasil fazia. Nós, eu e o Lucas, nos divertíamos, pois quando saía um gol só ouvíamos um grito GOoooooollll que diminuía consideravelmente de volume depois do “GO”! O cheiro de pipoca começou a invadir toda a UTI e senti muitas saudades de casa.
Nos dias que se seguiram, o Lucas começou a melhorar cada vez mais. Já ficava sentado na cama, mas ainda sentia tontura e não conseguia ficar em pé. Sempre que tentava levantar ele ficava branco que nem papel e tinha que se sentar. Aos poucos ele foi conseguindo ficar em pé com a ajuda dos enfermeiros e foi com o incentivo deles que meu filho recomeçou a andar. Um enfermeiro de cada lado e meu filho dando seus primeiros passos... Emocionante. Ele havia se esquecido de como se anda. Nunca pensei que fosse possível isso acontecer, mas vi que é possível sim, esquecer-se de como se anda. Meu filho colocava um pé bem a frente do outro o que o desequilibrava. Teve que aprender a colocar o pé a frente, mas também ao lado para não perder o equilíbrio. Aos poucos ele foi pegando o jeito da coisa.
O clima estava tão leve na UTI que comecei a aprontar das minhas, claro! Não é a toa que esta blog tem Mico como nome: O Lucas estava sentado na poltrona assistindo TV e eu no sofazinho fazendo companhia. Ele queria fazer xixi e, a toda poderosa mamãe, achou que seria muito fácil segurá-lo e levá-lo até o toilet no próprio leito da UTI, afinal eram apenas alguns passinhos e nada mais.
Meu filho ainda me alertou: “Mãe, tem certeza que você me agüenta?”, e eu: “Claro! Fica tranqüilo, só põe seus braços em volta do meu pescoço e deixa o resto comigo!” Foi uma das piores idéias de toda a minha vida! O Lucas colocou os braços em volta de meu pescoço e eu o levantei. A partir daí a gravidade fez o resto do trabalho. Conclusão: Eu, Lucas, Poltrona, Soro. sofazinho e tudo o mais que rodeava meu filho foi pro chão na velocidade da luz! Nunca vi tantos enfermeiros em toda a minha vida! Eles foram de uma agilidade fantástica! Óbvio que socorreram primeiro o Lucas! Depois de o virem em segurança que se lembraram da mãe idiota que estava estatelada no chão com cara de pamonha. Só lembro de ouvir os batimentos acelerados do meu filho denunciados pelo aparelho cardíaco fofoqueiro que ainda estava ligado a ele.
Tive que ouvir várias recomendações da equipe de enfermagem do tipo: “Não pode levantar ele sozinho, mãe! Tem que chamar a gente”; “Não faça mais isso, mãe!”, “Vocês podiam ter se machucado feio!”.... que ótimo! Isso serviu para eu e o Lucas darmos boas gargalhadas depois. No dia seguinte, finalmente meu filho foi liberado da UTI para um quarto no hospital.
Mais quatro dias em um quarto e finalmente ele teve alta. Hoje ele tem 20 anos, trabalha numa empresa como Assistente Administrativo, faz faculdade de Sistemas de Informação e é fera nisso! Continua usando a medicação preventiva da Asma, mas nunca mais teve que ir a um hospital por falta de ar. Anualmente ele visita seu médico, o mesmo que o tratou no hospital e sempre está melhor que no ano anterior. Apesar de toda a angústia que vivi naquela época, quando me falam: “Deve ter sido as piores férias da sua vida!”, eu respondo: “Na verdade, foram as melhores! Seriam as piores se ele não tivesse voltado comigo de lá!”. Beijos a todos!

4 comentários:

✿ chica disse...

Que coisa boa quando tudo fica pra trás e dá tudo certo,não>>. Recordações sofridas mas que se trasnformaram em felicidade.Legal!beijos,pra todos,chica

Myriam disse...

Graças a Deus né amiga? Fala verdade...Que Deus abençoe muito seus filhos e continue a te dar forças! beijos

Simone Audrei disse...

Dias extremamente difíceis, mas que agora são só lembranças...graças a Deus e a sua força de mãe, seu filho agora está bem.
Fiquem com Deus.
Bj.

wcastanheira disse...

Bela postagem, inteligente, leva à pensar, à meditar, vc é show, é mto bom passear por aqui, pra vc bjos, bjos e bjosssssssss